Família Acolhedora dá novo significado às vidas de crianças e adolescentes em Osasco

  Assistência Social

Texto: Marco Borba
Imagens: Leandro Palmeira

Em tempos de pandemia e agravamento da crise econômica e social, situação em que às vezes alguns lares são desfeitos em razão de desentendimentos, o programa Canguru – Família Acolhedora tem ajudado a ressignificar as vidas de cinco crianças e adolescentes e também de casais que abriram as portas de suas casas para receber esses jovens. O serviço é comandado pela Secretaria de Assistência Social (SAS), da Prefeitura de Osasco.

A iniciativa visa, entre outras ações, o atendimento de crianças e adolescentes que por alguma razão de quebra de vínculo precisaram ser afastadas de suas famílias. As crianças e adolescentes permanecem acolhidos na casa de famílias voluntárias pelo tempo que for necessário até que a Vara da Infância e Juventude decida o desfecho do acolhimento.

Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a medida protetiva de acolhimento não deve ultrapassar um ano e meio.  No entanto, observa-se que o acolhimento de bebês e crianças costuma durar poucos meses, enquanto o acolhimento de adolescentes  pode se estender até completarem a maioridade.

Essas famílias passam por avaliação criteriosa para que se defina se reúnem as condições de se tornarem famílias acolhedoras. Todo o processo de seleção e qualificação costuma durar três meses, tempo em que as famílias passam por entrevistas e verificações do histórico familiar, inclusive de antecedentes criminais.

Nesse período, cada família forma uma relação de apoio e confiança com a equipe técnica do serviço. Durante todo o acolhimento é realizado um acompanhamento muito próximo, com contatos semanais sobre como está sendo a rotina com a criança ou adolescente, além de encontros mensais entre as famílias acolhedoras, para compartilharem como vem sendo essa experiência.

Uma psicóloga e uma assistente social fazem visitas regulares às casas das famílias acolhedoras. As crianças também são ouvidas rotineiramente (sem a presença da família) para que se saiba como estão sendo tratadas no lar temporário.

Em vigor desde novembro de 2019, quando da aprovação de lei municipal, o serviço teve inicialmente seis famílias acolhendo. Hoje já realizou o cadastro de doze famílias. Contudo, no momento cinco estão acolhendo crianças e adolescentes. As outras já acolheram e/ou estão em vias de futuramente abrigar outros jovens. O atendimento também está previsto desde 2009 no ECA.

Conforme explicou a diretora de Proteção Social da SAS, Danielle Bueno, quando da criação do programa, a ideia é fazer com que essas crianças tenham um vínculo afetivo seguro.

Os pais biológicos só podem visitar os filhos na sede do serviço mediante agendamento prévio, desde que não haja restrição judicial, resguardando o sigilo sobre a residência das famílias acolhedoras.

Entre as famílias que aderiram ao serviço estão o servidor público municipal Ney Alves dos Santos e a esposa Elizangela Alves.

O casal tem seis filhos biológicos, mesmo assim decidiu abraçar o projeto e, desde 2019, acolheu quatro crianças, das quais três foram adotadas posteriormente por outras famílias e uma foi transferida de acolhimento.

Ney e Elizangela estão no quinto acolhimento. Dessa vez, um adolescente de 17 anos, o jovem Márcio (nome fictício). “É um trabalho intenso dar atenção, carinho, conselhos. Mas é muito gratificante. A gente sente que ajuda a reforçar nossos vínculos em família também, porque no nosso caso todos participam: a esposa, os filhos (biológicos), minha mãe, irmãos. Cada um ajuda de uma forma, com roupas, brinquedos, nos cuidados, passeios. A criança está sempre cercada de atenção e carinho”, conta Ney.

Emocionado, o adolescente conta que desde os seis anos vive em abrigos infantis. No último, permaneceu um ano e oito meses em uma instituição em Osasco. “Quando soube que seria acolhido, fiquei meio assustado, pois não sabia como é essa experiência de conviver com quem não conheço. Nunca tive isso na vida (convívio familiar). Apenas uma vez surgiu a oportunidade de adoção, mas não deu certo e tive de voltar para o abrigo. Com 17 anos, imaginei que ninguém ia querer saber de mim. É uma nova esperança de futuro”.

Márcio cursa o terceiro ano do ensino médio, tem planos de se alistar no Exército no próximo ano e seguir carreira militar. Ele trabalha como jovem aprendiz em uma empresa metalúrgica (em Barueri), que produz tubos e conexões para saneamento básico.

A dona de casa Fernanda Aparecida de Oliveira Meske, 38 anos, aderiu ao serviço em setembro e, após passar pelo treinamento, acolheu há pouco mais de um mês a pequena P. F, de 7 anos. Casada há dez anos com o engenheiro Lutz, 53, ela conta que o casal não tem filhos biológicos e que não aderiu ao programa por conta da bolsa de R$ 1.100,00 paga pela Prefeitura para a ajuda de custos das famílias (o valor não pode ser a única renda familiar).

“Somos bem estruturados financeiramente. Aderimos porque queríamos ajudar nesse projeto social, contribuir para o bem-estar de outra pessoa. Por um tempo ajudei a criar duas sobrinhas em casa. Uma agora tem 12 anos e outra, 17. Estava sentindo a falta de uma criança em casa. Aí surgiu essa linda (P. F). Trouxe uma nova dinâmica para a nossa rotina. Muda toda a vida da gente. É até difícil pensar que em algum momento poderá não haverá mais esse vínculo. Por mim, ficaria com ela até que complete 18 anos”, projeta Fernanda. É justamente para lidar com essas questões emocionais que atua a equipe técnica do serviço.

Conforme explicou a psicóloga da SAS, Andrielly Darcanchy, durante o treinamento e, ao longo da convivência, é feito um trabalho de conscientização junto às famílias em relação ao momento da quebra do vínculo, que pode ocorrer quando o acolhido volta a conviver com sua família biológica, quando é adotado ou quando o jovem completa 18 anos. “Conscientizamos as famílias para que entendam que trata-se de um projeto social acontecendo em suas casas, não é uma adoção”

Engajamento

 A pessoa interessada em participar como voluntário não precisa ser casada. No entanto, é necessário que tenha uma rede de apoio familiar, como pais ou irmãos, para que a criança seja assistida 24 horas por dia. O interessado não pode estar inscrito em programas de adoção.

A família acolhedora tem apenas a guarda provisória do jovem e, em casos de viagem com o mesmo, por exemplo, tem de solicitar autorização do juiz.

Osasco conta hoje com três casas de acolhimento para crianças e adolescentes mantidas pela Prefeitura (atende 34 pessoas) e duas conveniadas (18 acolhidos).

Serviço:

Outras informações sobre o Família Acolhedora podem ser obtidas nos seguintes telefones: 99689-6568 ou 2183-6723.

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